No Cinema com a Mídia apresenta "A Montanha dos Sete Abutres"

A Montanha dos 7 Abutres

Como prometido, estamos iniciando hoje o debate do segundo filme de nossa série "No Cinema com a Mídia : A Montanha dos Sete Abutres", em homenagem ao grande Kirk Douglas que completou 100 anos dia 9 de dezembro agora.

Como sempre, o post vem acompanhado da resenha elaborada pelo meu amigo cinéfilo Marcus Vinícius Nascimento, meu parceiro neste projeto ,que aproveita em seu texto para fazer uma bela homenagem a esse grande ator.

Como o filme é de 1951, você poderá assisti-lo aqui legendado. Bastando para isso clicar no link: http://megaboxfilmesonline.com/2015/06/assistir-a-montanha-dos-sete-abutres-legendado.html

Em seguida, seguem alguns questionamentos elaborados por mim, apenas para iniciar o debate com vocês, que como eu já disse é aberto não apenas aos profissionais de comunicação, mas a todos aqueles que têm interesse pelo papel da mídia, das fontes e que curtem um bom filme como nós.

O objetivo do debate dessa vez é discutir a cobertura sensacionalista por alguns profissionais de algumas crises... E o filme de 1951 mostra que isso sempre existiu.

Leia a resenha do Marcus, assista o filme e veja as minhas questões provocativas.

Aguardo os comentários de vocês aos meus questionamentos e sobre o filme em geral.

Bom Filme!!!

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES

por Marcus Nascimento

"No cinema com a Midia" apresenta "A Montanha dos Sete Abutres"

100 anos de Kirk Douglas. E a mídia continua a mesma.

Ainda Pão e Circo, 65 anos depois de “A Montanha dos Sete Abutres”

No dia 9 de Dezembro passado, Kirk Douglas, talvez dos últimos ícones remanescentes da era de ouro de Hollywood, celebrou cem anos de uma vida dedicada ao oficio atuar. Douglas foi único por pautar sua carreira pela escolha de personagens fortes, mas também ambíguos, numa época onde era clara a distinção entre good e bad guys. Foi assim em “Spartacus” e em “Gloria Feita de Sangue”, coincidentemente dois de seus grandes filmes dirigidos por Stanley Kubrick, onde encarnou heróis que a despeito da grandeza de seus atos, eram humanos e não abdicavam da fraqueza e das tentações da espécie, sempre em momentos cruciais da história da humanidade. Nem sempre foi assim.

Em 1951, Kirk Douglas sai de sua zona de conforto e incorpora Charles Tatum, um dos maiores canalhas que o cinema americano produziu em “A Montanha dos Sete Abutres” dirigido pelo também mítico Billy Wilder. O cineasta do sistemão clássico dos estúdios de Hollywood, que alternava em sua carreira a opção por comédias e crônicas de costumes em pérolas clássicas como “Irma La Douce” e “O Pecado Mora ao Lado” com a crueza de dramas que abordavam conflitos éticos e sociais na descrição de tipos inescrupulosos e escroques, a exemplo da Norma Desmond vivida por Gloria Swanson de “Crepusculo dos Deuses, foca numa questão que parece ser imortal para o jornalismo, qualquer que seja a época: qual o preço de uma boa noticia ? Quanto vale um furo de reportagem e a busca pelo estrelato e se possível, um Pullitzer ? Até quando uma noticia deve ser esticada ?

Em dado momento da crônica amarga retratada com uma fluência visceral e em tom sempre acima, realçada pela onipresente e espetacular trilha sonora de Hugo Friedhofer, a personagem de Douglas comenta com seu assistente e pupilo numa viagem de carro a uma cidade nas proximidades de Albuquerque para cobrir um festival de caça a serpentes que o que vende jornal é noticia ruim. Tragédia, se possível. Coisa boa não reverbera nem chama atenção de leitores – ou seria uma ... plateia ? – nem catapulta a carreira de jornalista. Seguindo para cobrir o tal festival bizarro, o até então cosmopolita repórter decadente de veículos de Nova Iorque e Chicago, alcoólatra e manipulador dos fatos, naquela altura desempregado e sem credibilidade alguma e que consegue trabalho temporário num jornaleco de quinta numa cidade nos cafundós do Novo México, se depara com uma tragédia no meio do caminho: durante a escavação para a retirada de objetos sagrados indígenas do interior de uma montanha para vender em sua loja de souvenires de beira de estrada, um homem é soterrado com a ruptura da base do piso. Seria a maldição dos espíritos indígenas na montanha dos sete abutres.

Bingo ! Que festival de serpentes, que nada. O horror estava ali, pertinho. A estória da vida daquela localidade será a tragédia pessoal daquele jeca soterrado. O repórter escroque arma o circo que o povo e a mídia precisavam para sair do marasmo. Do nada, o local do acidente se transforma num ponto de romaria de autoridades, jornalistas, curiosos, turistas, empresários e toda a espécie de gente interessada em vivenciar o drama do infeliz soterrado. Mr. Tatum, claro, querendo estender ao máximo a cobertura de tudo aquilo para tirar proveito pessoal e politico junto a aliados mais do que suspeitos. E ainda tira casquinha da mulher da vitima ! Que canalha !

Parece que pouca coisa mudou de 1951 para cá, nao é ? Charles Tatum ainda assombra nosso jornalismo.

Do mais, parabéns Kirk Douglas !

 

DEBATE

Bom, vou aproveitar as próprias falas do personagem de Kirk Douglas no filme, o inescrupuloso repórter Charles Tatum, para ver se elas ainda são aplicadas hoje por alguns é claro, não pela totalidade da mídia:     

- Até que ponto hoje, para conseguir um grande furo, um repórter diria ao seu editor: “Cuido de pequenas e grandes notícias e se não tem nenhuma, saio e mordo um cachorro.”

- Será que hoje alguns repórteres, na hora da crise ainda estimulam uma fonte, como a esposa de um acidentado , a esquentar a matéria, como fez Tatum com a manchete:  “A esposa dilacerada pela dor tentando ficar perto de seu marido", o povo vai gostar mais?  

- Será que hoje seria possível convencer autoridades e equipes de salvamento a retardar o processo para ter uma melhor divulgação, ou entrar em um horário de um noticiário mais nobre como Tatum fez com o xerife e o engenheiro?

- E para fechar com o mais polêmico: Até que ponto alguns jornalistas hoje abririam mão da verdade e manipulariam a notícia em nome do que ele chamou “interesse humano”, ou seja, de uma maior audiência e/ou leitores, mesmo correndo o risco da perda da credibilidade?